Por que devemos investir em Preservação Digital ?
Are We Really Preserving What We Collect ? (em português Será que estamos realmente preservando o que coletamos?)
Esta é uma tradução livre de informações obtidas a partir do Boletim Informativo do ISSN [1] e da matéria publicada a partir das reflexões sobre o mais recente Webinar da CLOCKSS, entidade que preserva conteúdos digitais [2].
O Webinar questiona pressupostos sobre preservação digital, indagando se as instituições estão realmente protegendo o conteúdo que coletam. As discussões destacaram que a preservação não é automática e requer políticas claras, decisões de seleção criteriosas e colaboração contínua. Muitos materiais permanecem vulneráveis devido à cobertura desigual, recursos limitados e falta de redundância.
Os palestrantes enfatizaram que a preservação é uma responsabilidade estratégica e ética, moldada pelas prioridades institucionais e pelas necessidades da comunidade. O fortalecimento da coordenação, da transparência e da infraestrutura compartilhada é essencial para garantir a integridade e a acessibilidade a longo prazo do registro acadêmico.
Nem todo conteúdo apresenta o mesmo nível de risco, e essa distinção é importante. O nível de risco depende, em parte, de como os repositórios são utilizados.
Em contextos de publicação em bibliotecas, onde os repositórios funcionam como a principal plataforma de publicação, eles podem conter a versão definitiva dos artigos, o que aumenta a importância da preservação.
Por outro lado, para outros tipos de publicações, os repositórios geralmente contêm cópias ou versões preliminares que também existem em outros locais, reduzindo o risco de perda permanente.
No entanto, quando os repositórios incluem materiais únicos, como teses, documentos internos ou coleções digitalizadas, os riscos são muito maiores.
Se esses materiais forem perdidos, podem ser impossíveis de recuperar, transformando a preservação de uma preocupação puramente técnica em uma responsabilidade estratégica.
Alicia trouxe outra perspectiva crítica para a conversa ao destacar o desafio da responsabilidade compartilhada. Em muitas instituições, a preservação digital não é de responsabilidade de uma única equipe. Em vez disso, está distribuída entre gerentes de repositórios, departamentos de TI, bibliotecários de preservação, equipes de conservação e digitalização, e outros. Cada um desempenha um papel, mas a coordenação costuma ser limitada.
Essa fragmentação dificulta o desenvolvimento de uma abordagem coesa para a preservação digital. Ela também apontou para uma mudança conceitual mais profunda.
No mundo impresso, acesso e preservação eram essencialmente a mesma coisa. Se você possuía o exemplar físico, precisava preservá-lo para mantê-lo em circulação. No mundo digital, essa relação não se aplica mais. Acesso e preservação são funções separadas e exigem estratégias diferentes.
Essa mudança nem sempre é totalmente reconhecida, o que pode levar a lacunas na forma como as instituições gerenciam seu conteúdo digital.
A discussão também abordou metadados e tecnologia, ambos cruciais para a preservação. A maioria dos repositórios possui metadados descritivos robustos, que facilitam a descoberta e o acesso. No entanto, os metadados de preservação são frequentemente subdesenvolvidos ou inexistentes.
Isso se deve, em parte, ao fato de que as plataformas utilizadas pelos repositórios tendem a priorizar o ACESSO em detrimento das necessidades de PRESERVAÇÃO a longo prazo.
A principal conclusão é que a preservação não deve ser tratada como um complemento. Ela precisa ser incorporada aos sistemas e fluxos de trabalho desde o início.
Olhando para o futuro, José refletiu sobre como abordaria pesquisas futuras nessa área. Em vez de se concentrar apenas no que os repositórios estão fazendo, ele direcionaria sua atenção para os motivos pelos quais não estão fazendo mais.
Ele identificou diversos fatores subjacentes, incluindo a falta de priorização, restrições de financiamento, recursos humanos limitados e lacunas em habilidades e treinamento. Esses desafios não são novos, mas continuam a moldar a forma como as instituições abordam a preservação.
Outro tema recorrente foi a importância da colaboração. Nenhuma instituição sozinha consegue gerir a preservação digital.
A escala e a complexidade da tarefa da preservação digital exigem infraestrutura compartilhada e esforço coletivo.
Organizações como a CLOCKSS, juntamente com bibliotecas, editoras e outros parceiros, desempenham um papel essencial na construção de sistemas resilientes. Alicia enfatizou que preservar conteúdo em múltiplos serviços confiáveis não é apenas uma boa prática, é fundamental.
Seja diante de falhas técnicas, desastres naturais ou riscos geopolíticos, a preservação distribuída garante que o conhecimento permaneça acessível.
O que torna esta conversa particularmente importante é que ela não aponta para uma solução única.
A preservação digital não é um desafio que se resolve com uma única solução. Requer conscientização, coordenação e disposição para repensar as abordagens existentes. Isso nos leva de volta a uma mudança fundamental de perspectiva.
Os repositórios não se resumem mais ao acesso. Eles também se referem à gestão responsável.
E a gestão responsável exige ações intencionais, desde o desenvolvimento de POLÍTICAS e o INVESTIMENTO EM INFRAESTRUTURA até a CAPACITAÇÃO e o fomento da COLABORAÇÃO.
A discussão serviu como um lembrete de que a preservação não acontece por acaso. Requer planejamento, recursos e comprometimento. À medida que o volume de conteúdo digital continua a crescer, também cresce a responsabilidade de garantir que ele permaneça acessível no futuro.
Isso nos lembra que devemos continuar a conversa.
As questões levantadas em torno da responsabilidade, das políticas e da colaboração são temas com os quais toda a comunidade acadêmica precisa se engajar.
Se há uma lição a ser aprendida, é esta: não podemos presumir que o conhecimento de hoje estará automaticamente disponível amanhã.
Garantir que isso aconteça exige um esforço deliberado e coletivo.
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[1] ISSN Newsletter n.150 April 2026. Disponível em: https://f7o1o.r.sp1-brevo.net/mk/mr/sh/SMJz09SDriOHVC2vshedpzgyn2Uq/WPRr1uUlCVYD Acesso em: 22 abril 2026.
[2] CLOCKSS. Are We Really Preserving What We Collect? Reflections from Our Latest Webinar. April 9, 2026. Disponível em: https://clockss.org/are-we-really-preserving-what-we-collect/ Acesso em: 22 abril 2026.
Webinar CLOCKSS: “The State of Digital Preservation in Repositories: Policies, Practices, and Gaps” held on March 25, 2026. Link: https://www.youtube.com/watch?v=UV4FvLXRmLE&t=5s Acesso em: 22 abril 2026.
Direitos de imagem: Freepik
Texto selecionado e compilado por Elisabeth Dudziak (ABCD/USP)
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