Projeto Métricas reúne reitores para discutir o impacto social das seis universidades públicas paulistas
O encontro reforça o interesse estratégico das seis universidades públicas localizadas no Estado de São Paulo para a criação de uma rede permanente de colaboração.
Dirigentes das seis universidades públicas paulistas se reuniram nesta quarta-feira, dia 10 de setembro, no II Encontro Presencial da Comunidade Métricas, para discutir formas de monitoramento do desempenho acadêmico e do impacto social das universidades.
O secretário estadual da Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan, abriu a sessão com uma palestra sobre os desafios das universidades do século 21. Agopyan falou sobre a difícil tarefa de as universidades estarem cada vez mais alinhadas às expectativas da sociedade, apresentando soluções, fomentando o desenvolvimento econômico e social, propondo políticas públicas.
“Nosso principal desafio é fazer com que a sociedade nos reconheça como uma solucionadora de problemas, é compartilhar o conhecimento que produzimos com a sociedade que nos financia.
Nós temos que inferir o que a sociedade almeja, porque é muito difícil para a sociedade externar e fazer proposições para as universidades. Cabe a nós nos debruçarmos na tarefa de discutir com os representantes da sociedade e compreender suas expectativas”, explicou.
Agopyan foi reitor da USP entre 2018 e 2021 e lembrou que a pandemia da covid-19 foi um divisor de águas para as universidades do mundo todo. Nesse período, as universidades conseguiram se adaptar rapidamente e, além de manterem suas atividades, foram essenciais para enfrentar a crise sanitária, oferecendo soluções e informações confiáveis.
“As universidades brasileiras demonstraram resiliência e conseguimos enfrentar a crise sanitária com o conhecimento. Foi uma oportunidade para fortalecer nossa credibilidade e nossa legitimidade. Porém, nós não introjetamos esses fatos e, aos poucos, estamos perdendo essa aproximação que tivemos com as expectativas da sociedade”, lamentou Agopyan.
Diante desse diagnóstico, o secretário propôs uma quarta missão para as universidades: propor políticas públicas. “Por que não utilizamos o conhecimento produzido em nossas universidades para propor políticas públicas transformadoras? Por que nossas pesquisas, além das teses, artigos e patentes, não podem ter como resultado propostas de políticas públicas a serem encaminhadas para os órgãos legislativos e executivos?”, questionou.
Perspectiva das universidades
“Nós precisamos estar em contato com a sociedade, responder às suas demandas, realizar pesquisas voltadas para o interesse da sociedade. Na USP, criamos centros de pesquisa voltados para áreas de interesse como meio ambiente, transição energética, justiça social, agricultura, inteligência artificial.
Esses centros, sem prejuízo à pesquisa realizada normalmente nas nossas Unidades, desenvolvem estudos para responder de maneira mais ágil e adequada às demandas das empresas, dos governos e da sociedade civil”, afirmou o reitor da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Gilberto Carlotti Junior.
Carlotti também ressaltou que, na área do ensino, as universidades precisam se preocupar em formar profissionais que, além do conhecimento adquirido na sala de aula, tenham a capacidade de aprender, de se adaptar às necessidades futuras.
A reitora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Raiane Assumpção, chamou a atenção para a desconexão que existe entre a opinião que a sociedade tem das universidades e o papel desempenhado por elas, responsáveis por quase toda a produção cientifica no nosso país.
“A universidade é o lugar que promove a habilidade de pensar, a capacidade de refletir e de buscar respostas, inclusive as respostas que ainda não existem, para colocar esse conhecimento à disposição da sociedade.
Temos a tarefa de melhorar a compreensão da sociedade sobre o que fazemos, chamando a atenção para a nossa importância na formação, na produção do conhecimento, na inovação, no desenvolvimento social, econômico e político do nosso país”, defendeu Raiane.
O coordenador-geral da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Fernando Coelho, chamou a atenção para o fato de que, muitas vezes, os pesquisadores almejam publicar seus artigos em revistas de alto impacto do Hemisfério Norte para que o conhecimento produzido aqui seja aceito. Entretanto, realizar pesquisas sobre assuntos de interesse nacional podem fornecer respostas para os problemas de muitas pessoas ao redor do mundo e originar novos campos de pesquisa.
“Na pandemia, as universidades se voltaram para a sociedade e foram trabalhar com a dor que era de todos, contribuindo com a geração de conhecimento e abrindo perspectivas para soluções. Temos que pensar em universidades que conversem mais com as comunidades, que reconheçam suas dores. Por que não nos debruçamos sobre as mazelas brasileiras como objeto de pesquisa?”, questionou o dirigente.
“A Unesp tem um perfil peculiar. Nós estamos presentes em 24 municípios do Estado, alguns muito pequenos, com cerca de 10 mil habitantes. Temos uma relação muito estreita com as comunidades dos municípios em que habitamos, tanto pelo aumento da atividade econômica causado pelos campi, quanto pelas nossas iniciativas voltadas para o cuidado daquela população, como, por exemplo, a prestação de serviços médicos e psicológicos.
Somos notados no interior por causa do movimento visível que causamos”, afirmou a reitora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maysa Furlan.
Maysa ressaltou que, por causa de suas características, a Unesp cultiva uma relação próxima com prefeitos e deputados das regiões em que seus campi estão instalados. Essa aproximação facilita a tarefa de identificar os problemas locais e avançar na relação entre a sociedade e a universidade.
“A universidade está contida na sociedade, somos parte dela e, por isso, precisamos vencer essa segregação. Acredito que precisamos nos enxergar como motor do desenvolvimento regional, e um caminho adequado para que a sociedade nos reconheça é a extensão.
Não a extensão vista como prestação de serviços, mas como uma relação dialógica em que a universidade atua com a comunidade e retorna com novas perguntas, novos problemas”, afirmou a reitora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Ana Beatriz de Oliveira.
Ana Beatriz também chamou a atenção para os problemas do negacionismo científico, da desinformação, da polarização e da disputa das narrativas que acabam impactando a atuação das universidades.
“As universidades têm o desafio de trabalhar em duas dimensões: as demandas que a sociedade conhece e as demandas que ela desconhece. Ciência não é mágica, é construção diária do conhecimento. Temos que fazer uma alfabetização científica para que as pessoas entendam que somos trabalhadores da ciência, ou seja, em alguns momentos estaremos aptos a dar respostas imediatas; em outros, não teremos respostas prontas”, explicou o reitor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Dácio Matheus.
O dirigente recordou que a UFABC foi criada há 19 anos, como uma resposta à demanda da região metropolitana de São Paulo e dos movimentos sociais por educação superior de qualidade.
Após a mesa com os reitores, foi a vez de representantes dos Escritórios de Gestão de Dados das seis universidades discutirem os desafios, os avanços e as perspectivas futuras na gestão de indicadores.
A coordenadora do Escritório de Gestão de Indicadores de Desempenho Acadêmico (Egida) da USP, Fátima Nunes, avaliou que “nós crescemos na análise crítica dos rankings e também avançamos em tornar os dados disponíveis mais úteis; entretanto ainda estamos trabalhando para fazer com que as recomendações feitas com base na análise dos indicadores gerem mais políticas efetivas”.
Fátima também ressaltou a importância de fortalecer o grupo das seis universidades paulistas: “Crescer coletivamente no G6 deve ser uma de nossas metas porque, quando discutimos de forma coletiva, quando tomamos decisões de forma coletiva, nós nos fortalecemos tanto interna quanto externamente”.
Encerrando o evento, o professor do Instituto de Física de São Carlos, Luiz Nunes de Oliveira, moderou o workshop sobre o uso da inteligência artificial na pesquisa acadêmica.
Promovido pelo Projeto Métricas, o encontro foi uma das atividades do VI Curso de Atualização em Métricas de Desempenho Acadêmico e Comparações Internacionais e ofereceu uma oportunidade de integração para os participantes e ex-participantes do projeto. No período da manhã, foram apresentados 11 seminários sobre a evolução dos planos de transformação institucional em diversas áreas da gestão.
Também estavam presentes no encontro a vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, e a diretora da FEA, Dolores Montoya.
== Projeto Métricas ==
O Projeto Métricas surgiu a partir de um estudo sobre indicadores de desempenho nas universidades estaduais paulistas em 2017, realizado com apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e liderado pelo ex-reitor da USP e professor da FEA, Jacques Marcovitch. A proposta inicial do projeto era aprimorar as métricas, estabelecer metas e, adicionalmente, melhorar a inserção das universidades brasileiras nas comparações internacionais.
Entretanto, ao longo de sete anos de trabalho, o escopo do Métricas foi ampliado e passou a propor que a avaliação das universidades ultrapassasse os índices quantitativos de publicações e citações – indicadores frequentemente utilizados em rankings internacionais – e começasse a considerar o impacto benéfico das universidades na sociedade.
A atuação do projeto impulsionou a criação de escritórios de gestão de dados nas universidades e o desenvolvimento de uma cultura voltada para a gestão estratégica baseada na avaliação de indicadores de desempenho acadêmico. Além das três universidades estaduais originalmente envolvidas no estudo – USP, Unesp e Unicamp –, o projeto também ganhou a adesão das instituições federais – Unifesp, UFSCar e UFABC –, formando um grupo de seis universidades públicas paulistas, o G6.
“O Métricas foi um espaço de construção dos primeiros escritórios de indicadores, mas depois aprendeu muito com as universidades. Hoje temos uma simbiose entre o conhecimento gerado no Métricas e a aplicação na gestão das instituições acadêmicas. Também estamos ganhando capilaridade, com o modelo de formação de interlocutores, ampliando o conhecimento que temos das diferentes realidades dentro das universidades”, explicou Marcovitch.
Além das pesquisas desenvolvidas no âmbito do projeto, o Métricas oferece, anualmente, o Curso de Atualização em Métricas de Desempenho Acadêmico e Comparações Internacionais, destinado a lideranças e profissionais de gestão universitária e dirigentes de instituições de ensino superior e comunicadores de ciência.
Em sua sexta edição, o curso foi responsável por formar uma comunidade com mais de 500 pesquisadores interessados em melhorar a gestão e a governança das universidades, desenvolvendo metodologias, indicadores e reflexões que, a partir da gestão de dados, identifiquem pontos fortes ou que precisam ser melhorados nas instituições.
“Com o projeto Métricas, as universidades públicas paulistas foram inovadoras no sentido de trazer a questão dos indicadores acadêmicos e de uma gestão estratégica baseada em dados para as universidades. O fato de instituições de outros Estados e, inclusive, de outros países participarem do projeto mostra a relevância e a contribuição do Métricas para as universidades”, afirmou Marcovitch.

O trabalho desenvolvido em fóruns, seminários e cursos do projeto resultou em três publicações:
Repensar a Universidade I: Desempenho Acadêmico e Comparações Internacionais, lançada em 2018, propôs a substituição do modelo de avaliação institucional centrado em um anuário estatístico, acessado pelos rankings globais, pela implantação de uma base digital para monitoramento e análise da performance da instituição;
Repensar a Universidade II: Impactos para a Sociedade, de 2019, tratou da avaliação de desempenho nas universidades e o seu impacto social; e
Repensar a Universidade III: Saberes e Práticas, de 2023, que apresentou estudos de casos que mostram o impacto gerado pelas universidades paulistas.
Nota: No dia 15 de setembro de 2025 foi realizado o Workshop “Localising the Global: Towards Responsible Research Assessment in Brazil” , na Sala do Conselho Universitário da USP.
“Localizando o Global: Rumo a uma Avaliação Responsável da Pesquisa no Brasil” refere-se a um projeto e discussão focados na adaptação de princípios globais para avaliação responsável da pesquisa ao contexto específico do cenário científico brasileiro.
Isso inclui a implementação de reformas como a Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (DORA) para ir além das métricas baseadas em periódicos, promover ferramentas de avaliação transparentes e diversificadas e levar em conta o contexto científico, social e cultural único do Brasil, bem como suas disparidades regionais e estruturas de financiamento. Iniciativas como o Projeto Métricas visam engajar a comunidade brasileira, identificar desafios institucionais e desenvolver estruturas alinhadas aos princípios de avaliação responsável.
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Fonte: YAMAMOTO, Erika. Projeto Métricas reúne reitores para discutir o impacto social das seis universidades públicas paulistas. Jornal da USP, 12 set. 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/institucional/projeto-metricas-reune-reitores-para-discutir-o-impacto-social-das-seis-universidades-publicas-paulistas/ Acesso em: 15 set. 2025.



